Quando o que possuímos ocupa o lugar de Deus
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Leituras do dia
- Primeira Leitura
- Ez 28, 1-10
- Salmo Responsorial
- Dt 32, 26-36
- Evangelho
- Mt 19,23-30
Texto completo das leituras no site oficial da CNBB.
Sobre uma mesa, alguém separa cuidadosamente contas pagas, documentos e objetos que não quer perder; em outra casa, uma pessoa abre o armário, encontra algo que pode ser útil e o entrega sem hesitar a quem precisa. Os dois gestos pertencem à rotina e têm sua razão. Cuidar do que se possui é necessário; afinal, trabalhamos, planejamos e assumimos responsabilidades. Mas existe uma diferença sutil entre administrar os bens e deixar que eles administrem o coração.
A palavra dirigida ao príncipe de Tiro revela o perigo de uma riqueza que cresce junto com a soberba. Ele acumulou ouro, habilidade, prestígio e poder, até começar a pensar de si mesmo como se fosse deus. Não foi a inteligência nem o trabalho que o afastaram do Senhor, mas a ilusão de bastar-se. Quando a pessoa atribui tudo à própria capacidade, perde a memória de que a vida, as oportunidades, a saúde e até a força para trabalhar são dons recebidos.
Jesus retoma esse ponto com uma afirmação que espanta seus discípulos. A riqueza pode tornar-se uma porta estreita não porque os bens sejam maus, mas porque oferecem uma segurança que parece completa. Quem tem recursos pode imaginar que controla o futuro, que não precisa pedir, esperar, depender ou agradecer. Pouco a pouco, o dinheiro deixa de ser instrumento e passa a ocupar o lugar de confiança que pertence a Deus.
Isso não se limita a grandes fortunas. Podemos nos prender ao saldo da conta, ao cargo conquistado, à imagem construída, à necessidade de ter sempre uma reserva para não precisar de ninguém. Também podemos tratar nossas competências como uma garantia absoluta, esquecendo que há situações em que nenhuma organização pessoal resolve tudo. Diante da pergunta dos discípulos sobre quem poderá salvar-se, Jesus não oferece uma técnica de desprendimento. Ele dirige o olhar para Deus: o que é impossível para nós é possível para Ele.
Seguir Cristo não significa desprezar a casa, a família, o trabalho ou os frutos de um esforço honesto. Significa recebê-los com liberdade, sem transformá-los no fundamento último da vida. O Senhor promete uma plenitude que não cabe em nossos cálculos: uma vida alargada pelo amor, pela comunhão e pela herança eterna. Neste começo de dia, o que você tem segurado com tanta força que já não consegue entregá-lo confiadamente a Deus?
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