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Ilustração em estilo gráfico: uma lua crescente sobre nuvens planas, em tons de verde musgo e verde salvia.
São Jerônimo Cor litúrgica: verde 3 min de leitura

Quando o primeiro lugar pertence ao Reino

Ouvir a reflexão · 4 min

Leituras do dia

Primeira Leitura
Jó 9,1-12.14-16
Salmo Responsorial
Sl 87(88)
Evangelho
Lc 9,57-62

Texto completo das leituras no site oficial da CNBB.

A palavra “primeiro” se repete nas respostas dadas a Jesus no caminho: “deixa-me primeiro” resolver uma questão familiar, cumprir um dever, despedir-me dos meus. Não são pedidos absurdos nem frios. Falam de vínculos importantes, de responsabilidades reais e de afetos que merecem respeito. Ainda assim, Jesus responde com uma firmeza que desconcerta, porque percebe que o coração humano pode transformar até mesmo coisas boas em motivo para adiar indefinidamente o passo que Deus pede.

Seguir Jesus não significa abandonar com desprezo a família, o trabalho ou os compromissos. O próprio Evangelho ensina o amor concreto, a misericórdia e o cuidado com os outros. A questão é outra: quem ocupa o primeiro lugar? Quando o chamado do Senhor fica sempre condicionado a um momento mais tranquilo, a uma situação mais favorável ou à solução de todos os problemas, talvez nunca chegue a ser acolhido. A vida passa a ser organizada apenas pelo que parece urgente, e o Reino de Deus vai ficando para depois.

Jó, na primeira leitura, reconhece a grandeza insondável de Deus. Ele contempla um Senhor que move montanhas, sustenta os céus e realiza maravilhas que ultrapassam a medida humana. Ao mesmo tempo, Jó sofre porque não consegue perceber claramente a passagem de Deus junto dele. Sua oração não nasce de respostas fáceis, mas da consciência de que, mesmo na obscuridade, Deus continua sendo Deus. O salmo dá voz a essa mesma súplica: uma prece que se ergue desde a aurora, mesmo quando parece encontrar silêncio.

É nesse lugar de limite, dúvida e busca que Jesus chama: “Segue-me”. Não promete um caminho sem insegurança; ao contrário, recorda que o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça. Segui-lo é aceitar que nossa estabilidade mais funda não está no controle das circunstâncias, mas na fidelidade à sua palavra. Quem põe a mão no arado não é chamado a viver preso ao que deixou para trás, como se Deus roubasse a vida; é chamado a avançar porque encontrou Aquele que lhe dá direção.

São Jerônimo ilumina esse apelo por sua dedicação incansável às Escrituras. Ele procurou conhecer profundamente a Palavra de Deus, trabalhou para torná-la acessível e permitiu que ela corrigisse sua inteligência, suas paixões e suas escolhas. Seu testemunho recorda que seguir Cristo pede escuta perseverante. Não basta admirar o Evangelho de longe; é preciso deixá-lo entrar na rotina, questionar nossas prioridades e formar em nós um coração disponível.

Talvez o adiamento de hoje não seja uma recusa declarada a Deus, mas uma pequena frase interior: “depois eu rezo”, “depois eu perdoo”, “depois eu converso”, “depois eu assumo o bem que sei que devo fazer”. Jesus passa pela estrada concreta deste dia e chama sem humilhar, mas também sem negociar o essencial. Que lugar sua voz receberá entre as urgências que já começam a ocupar seu coração?

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