O amor que corrige e reúne a comunidade
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Leituras do dia
- Primeira Leitura
- Ez 33,7-9
- Salmo Responsorial
- Sl 94(95),1-2.6-7.8-9 (R. 8)
- Segunda Leitura
- Rm 13,8-10
- Evangelho
- Mt 18,15-20
Texto completo das leituras no site oficial da CNBB.
O amor verdadeiro não se cala diante do mal. Quando percebemos que uma pessoa querida está se afastando de si mesma, ferindo alguém ou tomando um caminho perigoso, pode nascer em nós uma dúvida: falo ou deixo passar? O silêncio parece mais seguro, pois evita desconfortos e possíveis conflitos. Mas também pode se tornar uma forma de abandono, especialmente quando brota do medo de perder a boa imagem, de ser mal compreendido ou de lidar com uma reação difícil.
A primeira leitura apresenta Ezequiel como vigia. Sua missão não é controlar a vida do povo nem condenar quem erra; ele deve escutar a Palavra de Deus e advertir com responsabilidade. O vigia permanece atento porque se importa com a cidade confiada aos seus cuidados. Assim também, numa família, numa amizade, numa pastoral ou numa comunidade, não somos chamados a assistir indiferentes à queda do outro. Existe um cuidado que sabe alertar, não para humilhar, mas para oferecer uma possibilidade de retorno.
Jesus dá a esse cuidado um rosto concreto no Evangelho. Ele não manda expor o irmão, espalhar sua falta ou formar rapidamente um julgamento contra ele. Pede que se vá ao seu encontro em particular. Há muita sabedoria e caridade nesse caminho. A conversa reservada protege a dignidade de quem errou e exige de quem corrige um coração livre de vingança. Não se trata de vencer uma discussão, provar que temos razão ou descarregar uma mágoa antiga. Trata-se de ganhar o irmão, isto é, de não desistir dele.
Nem sempre a conversa produz o resultado esperado. Por isso Jesus fala da presença de outras pessoas e da Igreja. A correção fraterna não é um gesto isolado de superioridade, mas uma responsabilidade vivida no corpo da comunidade. Quando alguém se fecha, a comunidade é chamada a procurar caminhos de verdade e reconciliação, sem transformar a fé em tribunal de acusações. Mesmo a palavra firme precisa conservar a esperança, porque Cristo veio ao encontro dos pecadores e não deixa de buscar quem se perdeu.
O salmo nos recorda onde esse processo começa: na escuta. “Não fecheis o coração” não é apenas um apelo para os que precisam mudar de conduta; é também uma advertência para quem pretende corrigir. Podemos fechar o coração ao ouvir uma observação justa, mas também o fechamos quando acreditamos conhecer completamente o outro, quando falamos sem rezar, quando confundimos zelo com irritação. Diante do Deus que é nosso Pastor, aprendemos a ouvir sua voz e a reconhecer que todos precisamos ser conduzidos.
São Paulo oferece a medida decisiva: a única dívida que permanece é o amor mútuo. Amar não significa aprovar tudo, nem evitar toda palavra exigente. O amor não faz mal ao próximo; por isso, procura seu bem real, inclusive quando esse bem pede uma conversa delicada, um pedido de perdão ou uma mudança de atitude. A verdade sem amor pode ferir e afastar; um amor sem verdade pode deixar o irmão sozinho em sua ilusão. Em Cristo, verdade e misericórdia se encontram para restaurar a vida.
Há motivo profundo para gratidão neste domingo. Deus não nos deixa entregues aos nossos próprios fechamentos, nem nos trata como pessoas descartáveis depois de uma falha. Ele fala, adverte, reúne e sustenta seu povo. Agradecemos porque a Igreja não é uma soma de indivíduos que se toleram à distância, mas uma casa em que podemos ser chamados de volta, acompanhados e perdoados. A presença de Jesus no meio dos que se reúnem em seu nome dá valor até aos passos mais simples de reconciliação.
Talvez hoje o Senhor coloque em nosso coração o nome de alguém com quem precisamos conversar com mais sinceridade, ou talvez nos mostre uma palavra que resistimos a acolher. Peçamos a graça de não fechar o coração e de agir sem dureza, sem omissão e sem orgulho. Ao nos reunirmos na celebração dominical, que possamos oferecer ao Senhor nossos vínculos feridos e pedir que ele faça de nossa comunidade um lugar onde cada irmão seja procurado, escutado e amado.
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